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Vamos falar sobre o futuro?

Artigo de Sergio Besserman em 19/9/2022

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besserman.jpgPor Sergio Besserman Vianna

No que a missão das companhias de seguros coincide com a jornada histórica do século XXI?

A história não é monotônica. Assim como um indivíduo tem momentos decisivos (Caso ou não caso? Aceito esse trabalho ou faço a viagem que quero?), também cidades, países, empresas… Uma civilização, mesmo em seu tempo mais longo, tem suas épocas decisivas, de adaptação ou não às grandes mudanças do pano de fundo da história.

O sapiens tem cerca de 300 mil anos. Por 288 mil anos, aproximadamente, vivemos, sempre com muita diversidade cultural, mais ou menos da mesma forma. Há um quase consenso que foi o surgimento de uma rara era de estabilidade climática e condições naturais muito favoráveis, o Holoceno, que permitiu o surgimento de sociedades agrícolas e, posteriormente, das grandes civilizações, geralmente em deltas de rios.

A apenas 300 anos, com a revolução industrial, o capitalismo e a consequente explosão da ciência, tecnologia e inovações, iniciamos um período que podemos chamar de A Grande Aceleração. Uma única variável ilustra o quão impressionante foi a velocidade de mudança em todos os aspectos da vida social: 300 mil anos levaram a população mundial de humanos a 600 milhões. Os últimos 300 anos, a 7,8 bilhões.

A expectativa e a qualidade de vida aumentaram enormemente.  Mas fatores de mudança foram se acumulando, sendo represados, por diversos motivos que não são objeto desse artigo, e três vetores de transformação fundamentais foram reunidos na mesma época, a primeira metade do século XXI.

Em primeiro lugar, a IV revolução industrial em andamento é profundamente disruptiva, modificando aspectos essenciais da existência humana. Inteligência artificial, robotização e biologia sintética (a edição de DNA com a descoberta do Crispr) não apenas tendem a depreciar muito mais rapidamente do que o previsto a base produtiva da sociedade, um grande desafio econômico, como alteram a natureza do emprego, das relações humanas e na exigência de governança global para escolhas frente a dilemas éticos sobre quem será o sapiens do próximo século.

A ação humana encerrou uma época da história natural, o Holoceno, e não é mais possível evitar que a temperatura média do planeta até 2100 aumente acima do que qualquer gestão de risco elementar (o Princípio da Precaução) consideraria indispensável. Da mesma forma, não é mais possível evitar que entre 20 a 30 % das formas de vida do planeta sejam extintas. Um planeta diferente não é mais evitável.

Temos um tempo muito curto para modificar radicalmente a relação dos processos de produção e consumo com a natureza antes que todos os humanos, especialmente aqueles (muitas centenas de milhões) em situação de vulnerabilidade por conta da pobreza e diversas formas de discriminação e exclusão, sejam tão fortemente impactados que um período muito conturbado da história seja facilmente previsível.

É possível fazer muito e esse muito significa também um mundo melhor. Mas as transformações são radicais e vão muito além das tecnológicas. Zero carbono, ou seja, o fim da civilização dos fósseis, economia circular, soluções baseadas na natureza, a compreensão de que não somos donos nem hóspedes do planeta, mas parte da vida, da biosfera, representam mudanças muito profundas nas relações de produção e sociais. E, para impedir severa crise, essas transformações tem que ocorrer em tempo incrivelmente acelerado: as próximas três décadas.

O mesmo processo histórico que nos trouxe a esse ponto fez com que essas sejam também décadas de alteração na geopolítica mundial, com a China recuperando sua posição de maior economia do mundo, que só perdeu nos últimos 300 anos, e quando as questões antes abordadas exigem imperativamente uma governança global nunca antes existente nem imaginada.

Finalmente, a confluência desses processos com o fato de que uma humanidade tão rica e tão tecnologicamente poderosa não eliminou a pobreza, permite a existência de 1 bilhão de pessoas em situação de insegurança alimentar e aumentou em muito a desigualdade, fez com que, nessas primeiras décadas do século XXI, possa ser claramente percebido um profundo mal-estar civilizacional, uma das bases da crise das democracias na década passada e na atual.

A confluência desses processos históricos em um mesmo tempo assegura que as próximas décadas não são de mudanças, mas sim de MUDANÇAS.

As companhias de seguros necessitam, por conta de sua missão, e pela natureza de seu negócio, de uma visão de prazo mais longo e, também, da ainda mais difícil capacidade de distinguir as mudanças que estão sempre a ocorrer dos raros momentos na história em que tudo muda.

Estão convocadas a acrescentar às inovações voltadas para melhor atendimento dos clientes e mais competitividade, acompanhamento da história e profunda visão de futuro.

E são essas reflexões que o Prêmio de Inovação em Seguros também traz para todo o setor segurador.

Sergio Besserman é economista, ecologista, professor do departamento de Economia da PUC-Rio e jurado do Prêmio de Inovação em Seguros da CNseg

 

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