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Projeto “Paz no Coração” chega a 14 unidades prisionais de SP

Ações psicossociais viabilizadas pelo SEMEAR representaram 83% das iniciativas de 2021 com foco no recuperando

18 de Março de 2022 - Instituto Ação Pela Paz

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Participantes do projeto “Paz no Coração” - Foto: divulgaçã

“Acreditar em si, se amar... é necessário procurar o lado positivo das coisas, não só os negativos, pois lutas e batalhas a gente sempre terá na vida, mas se olharmos só para os problemas nos afundamos cada vez mais”, reflete Adriana Fortunato, egressa do sistema prisional.

Adriana ganhou liberdade em novembro de 2020. Seu relato, pertinente a qualquer pessoa, independentemente de sua história, se baseia na experiência vivida ao longo de sua passagem pelo Centro de Ressocialização Feminino (CRF) de Piracicaba, no interior de São Paulo, onde conheceu o projeto “Paz no Coração, Liberdade na Prisão”.

Buscando vencer uma depressão, Adriana consultou diversos psicólogos e psiquiatras. A ajuda foi muito importante, mas ainda faltava algo para contornar a sensação de abismo que tomava seus pensamentos. Em uma consulta com Celeste Abamonte, então diretora da unidade, ela teve seu primeiro contato com o programa apoiado pelo Instituto Ação Pela Paz, organização que recebe o auxílio da CNseg para administração de suas atividades.

A iniciativa é da terapeuta integrativa e voluntária Rita Duenhas, que, ao lado de pessoas engajadas na causa do autoconhecimento, criou uma série de 21 dias de meditação e palestras para pessoas privadas de liberdade. As atividades são viabilizadas pelo SEMEAR (Sistema Estadual de Métodos para Execução Penal e Adaptação do Recuperando).

“Integrar algo que possa transformar a vida das pessoas, fazer com que elas a repensem e tracem um novo rumo foi o que me impeliu a realizar esse trabalho”, explica Rita, que teve a ideia para elaborar o conceito do conteúdo no início da pandemia de Covid-19.

A crise sanitária, enfrentada por todo o mundo, resultou em diversas limitações no contato entre as pessoas. Uma delas foi a interrupção de visitas nas unidades prisionais, o que acendeu em Rita o alerta para a saúde mental dos reeducandos.

Para evitar a propagação do vírus, o projeto foi elaborado de forma virtual, trazendo vídeos conduzidos por meditadores voluntários, com o objetivo de desenvolver uma consciência maior sobre o “eu” interno de cada beneficiário. O foco é proporcionar o equilíbrio físico, mental e espiritual, auxiliando na transformação interior e consequentemente o exterior.

“Eu preciso reconstruir a mim a cada instante”, diz Monja Coen, uma referência da cultura budista no Brasil, durante a abertura de um dos 21 registros audiovisuais do projeto. “Ter um tempo para respirar, se perceber e ser levado mentalmente e espiritualmente para lugares que o participante nem imaginava poder ir é um bálsamo para a alma”, sintetiza Rita.

Na prática o projeto funciona de forma simples, mas com uma estrutura bem amarrada para alcançar o bem-estar de todos os envolvidos. Antes de iniciar as sessões, a unidade nomeia uma pessoa, podendo ser reeducando ou policial penal, para ser o monitor “acolhedor”, que também fica responsável pela troca de mensagens via cartas entre internos e voluntários.

“Cada carta que recebemos é como a visita de um ente querido”, relata uma das participantes. “A experiência das cartas têm sido um presente para cada voluntário parar, se solidarizar e passar palavras de esperança e otimismo, isso nos abastece de amor, luz e esperanças”, compartilha Rita.

Assistência psicossocial foi destaque em unidades prisionais

Em 2020, o “Paz no Coração” foi implementado em oito unidades prisionais do estado de São Paulo, revelando uma motivação das diretorias penitenciárias e centros de ressocializações em projetos psicossociais.

Já em 2021 o alcance do projeto aumentou, chegando a 14 unidades, contando com 391 participações. Aplicaram o formato os Centros de Detenção Provisória de Capela do Alto e Sorocaba, além dos Centros de Ressocialização de Itapetininga, Limeira, Mogi Mirim, Araraquara, Piracicaba e Rio Claro. Os internos das Penitenciárias de Capela do Alto, Mogi Guaçu, Votorantim, Itapetininga, Itirapina e Hortolândia também receberam o conteúdo.

Ao longo do ano que passou, os projetos do SEMEAR focados no atendimento psicossocial representaram 83% das ações direcionadas ao público em privação de liberdade. Um dos pontos fortes observados ao longo dos monitoramentos desses programas foi a restauração dos vínculos entre os recuperandos e seus familiares.

A paz começa em mim

O nome “Paz no Coração, Liberdade na Prisão” pode soar contraditório para alguns, mas Claudiano Francisco da Silva, Coordenador Pedagógico da Penitenciária Dr. Antônio de Souza Neto, em Sorocaba (SP), enxerga nele um reflexo dos benefícios do projeto na rotina dos reeducandos.

“Eu os percebi mais calmos e tranquilos, refletindo sobre as ações e, de alguma forma, buscando levar o aprendizado para a rotina do dia a dia. Aqui nós promovemos uma partilha em grupo a respeito de situações do convívio e é notável que eles estão mais aplicados e mantendo melhor o foco na recuperação”, destaca Claudiano, que atua no sistema prisional desde 1994.

A rotina da PII de Sorocaba, como é conhecida a unidade prisional localizada no interior de São Paulo, mudou de forma positiva. “A ansiedade está mais controlada. Hoje eles assumem melhor os próprios erros e há uma ponderação quando se diz respeito ao perdão. Nas cartas, eles expressam uma reconsideração nesse sentido”, afirma o pedagogo.

O relacionamento com a família é o que gera mais impacto, segundo Claudiano. Quando envolve parentes a emoção é mais aflorada e como consequência relatos de reconciliação são constantes. Uma percepção parecida também é frisada por Maria Regina Ferreira, psicóloga do Centro de Detenção Provisória (CDP) de Sorocaba.

“O ponto mais sensível que o projeto aborda é o arrependimento, a consciência de culpa. Ao raciocinar sobre o ato feito, eles refletem em relação ao passado, o que gera otimismo em todas as áreas da vida. Os participantes começam a pensar no futuro, criando bastante sensibilidade na questão da afetividade e empatia”, diz Regina.

Para ela, o projeto toca mais profundamente se comparado a outros que já trabalhou e ressalta que a ação “mexe com as emoções sem agredir, somente aceitando e acolhendo a pessoa. Ele não só ensina, mas faz pensar e refletir”.

A psicóloga também lembra que a adesão foi grande. “Acreditava, antes de iniciar as atividades, que muitos poderiam não aceitar a ideia por interpretarem alguma questão ligada à religião, pois muitos integrantes são da doutrina evangélica, mas isso nunca foi uma barreira. Eles entenderam que a meditação é algo além disso”, conta Maria Regina.

Claudiano relembra os depoimentos de participantes reiterando a importância do programa. “Muitos chegam até mim, desabafam e afirmam que sem determinada palestra talvez não tivesse conseguido alcançar um objetivo específico”, conta o Coordenador.

“Penso que o autoconhecimento e o controle emocional são ferramentas fundamentais para usarmos no decorrer de nossas vidas”, comenta Celeste.

Ao longo dos anos, Claudiano teve a oportunidade de conhecer alguns ensinamentos orientais e hoje consegue desempenhar seu papel na disseminação do projeto com conhecimento de causa. Em sua percepção, a prática desses exercícios o ajuda a ser uma pessoa melhor.

O Coordenador Pedagógico da PII de Sorocaba enfatiza que a meditação “não é só adquirir uma consciência corporal, mas ter também uma experiência no convívio com outras pessoas e aprender a respeitar e valorizar outros meios, inclusive a natureza. Isso traz o olhar para si e ao outro. É enxergar ao seu redor”.

Uma recuperanda do CRF de Piracicaba resume o impacto positivo desse trabalho ao recordar um pouco da sua rotina. “Lá na ala, toda vez que começa uma confusão, eu logo grito: ‘ei, mulherada, a paz começa onde?’ e todas respondem: ‘em mim’”.

Sobre o SEMEAR

O Semear (Sistema Estadual de Métodos para Execução Penal e Adaptação do Recuperando) foi criado em 2014 por meio do provimento da Corregedoria Geral da Justiça do Tribunal de Justiça de São Paulo e tem como parceiros a Secretaria Estadual de Administração Penitenciária e o Instituto Ação pela Paz. O programa busca maior efetividade na recuperação dos presos e suas famílias.

 

 

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